SOMO DEUSES? Mateus 10:31
Por Raimundo Gomes
22Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno. 23Jesus passeava no templo, no Pórtico de Salomão. 24Rodearam-no, pois, os judeus e o interpelaram: Até quando nos deixarás a mente em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-o francamente. 25Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. 26Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. 27As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. 28Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. 30Eu e o Pai somos um. 31Novamente, pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. 32Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais? 33Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia, pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. 34Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses? 35Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar, 36então, daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas; porque declarei: sou Filho de Deus? 37Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis; 38mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai. 39Nesse ponto, procuravam, outra vez, prendê-lo; mas ele se livrou das suas mãos.
A expressão “sois deuses” citada por Jesus em Mateus 10.31 trás referência a uma declaração em salmos em relação aos governantes corruptos de Israel que julgavam com injustiça, demonstravam parcialidade com os iníquos e tratavam com crueldade as crianças (Salmos 82.1-6). O autor deste salmo ironiza a condição destes governantes que se consideravam acima dos outros e julgavam como se fossem deuses. Na época era muito comum um homem de posição se considerar deus, um exemplo claro desta situação, são os faraós do Egito que por diversas vezes se consideravam deuses, outro exemplo, são os próprios imperadores de Roma que questionavam sua posição divina ante a morte. É possível que Nabucodonosor tenha tido essa pretensão. O que parece, é que os hebreus antigos foram influenciados por esta teologia pagã.
Isaias conhece bem esta condição quando declara ao rei da Babilônia: Is 14.12-19
“12Rei da Babilônia, brilhante estrela da manhã,você caiu lá do céu!você, que dominava as nações, foi derrubado no chão! 13Antigamente você pensava assim:“Subirei até o céu e me sentarei no meu trono,acima das estrelas de Deus. Reinarei lá longe, no Norte,no monte onde os deuses se reúnem. 14Subirei acima das nuvens mais altas e serei como o Deus Altíssimo.” 15Mas você foi jogado no mundo dos mortos, no abismo mais profundo. 16Os mortos vão olhar espantados para você e vão perguntar: “Será este o homem que fazia os reinos tremerem, que fazia o mundo inteiro tremer de medo? 17Será este o homem que fez o mundo virar um deserto, que arrasava cidades e não deixava os seus prisioneiros voltarem para casa?” 18Todos os reis do mundo foram sepultados com homenagens, cada um na sua própria sepultura, 19mas você não foi sepultado. Como se fosse um aborto nojento, o seu corpo foi jogado fora e pisado. Está coberto de corpos de soldados mortos na batalha, daqueles que desceram até a cova cheia de pedras. 20Você não foi sepultado como os outros reis, pois arrasou o seu próprio país e matou o seu próprio povo. Que morram todos os descendentes desse rei maldito!”
“Como caíste do céu, ó estrela d’alva, filho da aurora! Como foste atirado à terra, vencedor das nações! E, no entanto, dizias no teu coração: ‘Hei de subir até o céu, acima das estrelas de Deus colocarei o meu trono... Subirei acima das nuvens...’. E, contudo, foste precipitado ao Xeol, nas profundezas do abismo” (14,12-15). “O nome da personagem citada vem de uma raiz que significa ser luminoso, brilhante (em árabe, o hilal é a lua nova). O autor do poema refere-se, com certeza, a uma tradição mitológica: nos textos de Ugarit, o deus Attar (Vênus), concorrente de Baal, sofreu uma queda semelhante à de Helel, aqui (...). No mundo grego conhece-se o mito de Faeton (o brilhante), filho de Eos (a aurora). O mito de seres celestes decaídos, parece, portanto, ter sido amplamente conhecido no mundo mediterrâneo antigo, e a literatura judeu-helenística lhe dará novos desenvolvimentos.”
Isaías expõe claramente que o rei da Babilônia ousa ser como Deus e logo subiria mais alto para se assemelhar a ele.
O autor do Salmo 82 está familiarizado com esta teologia e expressa:
1Deus toma o seu lugar da reunião dos deuses e no meio deles dá a sua sentença: 2“Vocês precisam parar de julgar injustamente e de estar do lado dos maus. 3Defendam os direitos dos pobres e dos órfãos; sejam justos com os aflitos e os necessitados. 4Socorram os humildes e os pobres e os salvem do poder dos maus. 5“Vocês são ignorantes, não entendem nada; vocês vivem na escuridão. As bases da lei e da ordem na terra estão abaladas. 6Eu disse: ‘Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Deus Altíssimo. 7Porém morrerão como os homens comuns morrem; a vida de vocês acabará como a de qualquer príncipe.’ ” 8Vem, ó Deus, e governa o mundo, pois todas as nações são tuas!

Tais governantes, que se julgavam deuses, sofreriam o juízo divino e morreriam (Sl 82.70) Julgar-se deus parece ser o pecado característico da besta que o autor de apocalipse atribui ao imperador Romano declarando-o como anticristo. (AP. 13.6-9).
Por outro lado a profecia declara que os juízes de Israel são chamados de Deuses pela capacidade outorgada de julgar Israel e ou que preenchem uma das funções essenciais de Deus (ver Ex 21,6;22,8 e 28)
Na declaração de João 8.34, Jesus não ensina, em hipótese alguma, que os cristãos e ou outras pessoas devam se considerar-se deuses. A Bíblia afirma, pelo contrário, que aqueles que se consideram e declaram deuses serão condenados por Deus. O senhor declara: “Os deuses que não fizeram os céus e a terra desaparecerá da terra e de debaixo deste céu” (Jr.10.11).
O texto mostra um diálogo entre Jesus e outros judeus que achavam que ele cometera uma blasfêmia ao declarar-se Filho de Deus. Na época a declaração “Filho de Deus” não era algo comum como hoje. Declarar-se Filho de Deus na época antiga entre os judeus era considerar-se como da Família de Deus com a mesma autoridade. A tradição judaica demonstra alguns outros que quase foram apedrejados por essa blasfêmia.
O texto mostra que Jesus ao declarar filho de Deus, os judeus consentiram em apedrejá-lo por ousar pensar que tinha autoridade como Deus. Jesus responde-lhes afirma que a própria toráh (a lei) afirma que aos juízes foi dado o poder julgar como Deus, e que, se a eles foi dado este poder, ainda mais o Filho Deus. O que ele procura mostrar é a autoridade que a ele foi outorgada como Filho de Deus.

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