SEMINÁRIO DE JESUS HISTÓRICO
29/10/2010
O AMOR e REGRA DE OURO

O germe da revolução na pregação de Jesus não emerge de uma crítica dirigida à lei judaica, mas, no geral, de outras premissas, que não nasceram com Jesus. Ao contrário, seu ataque crítico originou-se a partir de atitudes já estabelecidas antes de sua época. A revolução irrompeu em três pontos: a interpretação radical do mandamento de amor mútuo, o apelo por uma nova moralidade e a idéia do reino do céu.
O judaísmo é uma religião ética na qual o princípio de justiça é indispensável; Justo X pecadores.
O conceito de punição do pecador e recompensa do justo é a matriz do judaísmo. Precisa haver justo e pecador, pobre e rico, só assim se manifesta a justiça de Deus.
A questão da prosperidade do iníquo e a tristeza do justo tomavam o coração dos antigos.
“ Cria-se a máxima: fazer o bem sem esperar a recompensa”.
Amar a todos como o próprio Deus, por que não se sabe a extensão da sua misericórdia. (Lc. 6:36) também um dito antigo.
Lucas 6:36 é o paralelo de Mateus 5:48 “ Deveis ser perfeito como vosso pai celeste é perfeito”. – “Não deve haver limites em vossa bondade, assim como a bondade de vosso pai não conhece limites”.
Mateus 5:48 é meramente a conclusão de uma pequena homilia, na qual Jesus ensina que Deus estende a mão com amor para todas as pessoas, sem levar em consideração sua atitude e seu comportamento com relação a Ele, por que faz nascer o sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”.
Rabi Abahu disse: “ Maior é o dia da chuva que o da ressurreição. Pois este último beneficia somente os devotos, ao passo que aquele igualmente devotos e pecadores”.
Disse Hilel o velho: “ Que a honra de teu semelhante te seja tão cara como a tua própria” – Assim todo homem viria a ser, verdadeiramente o guarda de sue irmão, conforme queriam as Escrituras.
Nos círculos em que a nova sensibilidade judaica estava então bem desenvolvida, o amor ao próximo era considerado uma precondição para a reconciliação com Deus. Certo rabino disse, pouco tempo depois de Jesus, “As transgressões entre um homem e seu semelhante não são remidas pelo dia da expiação, a não ser que aquele primeiro faça a paz com seu semelhante”. Similarmente, ouvimos Jesus dizer: “Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os vossos delitos” (Mt 6:14-15).
A regra de ouro era na época um imperativo moral por muitas nações.

Disse Hilel: “Não julgues o teu próximo enquanto não se encontrares na situação dele”.
“ O que é desagradável para ti, não faça a teu semelhante; esta é toda a lei, o demais é senão dedução”

Ambos Jesus e Hilel, antes dele, viam a Regra de Ouro como uma síntese da Lei de Moisés. Isso se torna inteligível quando consideramos que o dito bíblico, “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19:18) era tido por Jesus e pelos judeus, em geral, como o principal mandamento da Lei. Uma antiga tradução aramaica deste preceito bíblico diz, “Ama teu próximo, e o quer que te desagrade, não faças a ele”.
O mandamento tão importante que a expressão “como a ti mesmo” no mandamento bíblico de amar o próximo podia ser interpretado, “como se ele fosse tu”
O relacionamento de um homem com seu próximo deveria, pois ser determinado pelo fato de eles serem semelhantes entre si, tanto nas características boas quanto na más.
“Aquele que se afastara da casa de seus pais em Nazaré e tornara-se “amigo de publicanos e pecadores” sentia que tinha sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Não foi simplesmente seu modo de vida geral que motivou a expressar devoção amorosa aos pecadores; esta inclinação estava, profundamente associada ao propósito último de sua mensagem. Desde o início de seu ministério até sua morte na cruz, a pregação de Jesus estava, por sua vez, relacionada a seu próprio modo de vida. O mandamento de amar os inimigos é uma característica tão sua que, em todo novo testamento, seus lábios são os únicos dos quais ouvimos este mandamento. Naquela época era, obviamente, muito difícil que as pessoas se elevassem à altura do mandamento de Jesus.
Jesus procura interpretar corretamente a Lei de Moisés (cf. Mt 5:17) cita dois grandes mandamentos que é a base da Lei, (Dt.6:5) e (Lv 19:18). Considerava tão importante quanto sua mensagem. Ele simplesmente tomou emprestado o dito de um escriba. “Então lhes disse: ... (Mt 13:52)
Jesus aplica sua interpretação radical no ensino da Torah, onde o homem é visto como um ser não-problemático em contraste com o judaísmo antigo. Se uma pessoa não for cuidadosa, um pecado pode levar a outro. Mesmo uma ação que não parece pecaminosa pode fazer com que ela se enrede num pecado real. Havia um dito, “Fuja do mal e do que ele se assemelha”. Se aplicarmos este conceito aos mandamentos, descobrimos que os menores são tão sérios quanto os maiores.
A relação com o próximo é tão séria que no judaísmo se ensinava que o inferno estava destinado a três tipos de pessoas: O Adúltero, o que envergonha seu semelhante e o que ofende o próximo.
Mt. 5:29-30 tem um paralelo interessante na literatura rabínica. Jesus disse: “Caso o teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança –o para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo seu corpo seja lançado na Geena”. O mesmo é dito acerca da mão e do pé. Anteriormente (MT. 5:28), Jesus dissera que todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso cometeu adultério com ela em seu coração. Existia uma concepção judaica segundo a qual, no hebraico, a palvra “cometer adultério” tinha quatro letras, a fim de advertir-nos que ele poderia ser cometido por meio da mão, do pé, do olho e do coração. Jesus iniciou sua exegese das escrituras enfatizando a importância dos mandamentos menores. Imbuído deste espírito, foi então capaz de equacionar a cólera ao assassinato e o desejo libidinoso ao adultério.

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